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Livro III · Volume 1

Yehlisa e a Mbira Mágica

Crónicas da Cidade de Luz · ≈ 13 minutos de leitura

"Enquanto houver música, haverá vida. E enquanto houver vida, a Luz de Maguezi não se apagará." — Juramento do Régulo Amado

A Cidade Onde a Luz Canta

Dizem os mais antigos que, nas primeiras eras — quando os rios ainda aprendiam o caminho do mar e os ventos procuravam nome — nasceu uma cidade chamada Maguezi, que, na língua dos Sábios, significa: "Onde a Luz Canta".

Era um lugar de encanto e mistério, um refúgio entre montes e planícies, onde o riso era o idioma do povo e a alegria, o alicerce invisível das suas moradas.

Muitos vinham de longe para contemplar aquele milagre: como podia um povo prosperar sem muralhas, sem exércitos e sem temor?

Os anciãos, com a serenidade de quem guarda o tempo, respondiam:

— Porque aqui a vida é dança e a união é o ritmo. O coração é o nosso templo e o sorriso, a nossa oração.

O Régulo Amado, fundador de Maguezi, ensinara que a verdadeira riqueza de um povo está na sintonia e na partilha. Dizia ele:

— O ouro é pó; a alegria é semente. A pedra apenas se ergue pela música que nela habita.

Por isso, os povos vizinhos chamavam a Maguezi Cidade da Frequência Viva, pois nela cada gesto, cada palavra e cada canto vibravam em harmonia com o som primordial da Criação.

A Filha dos Oleiros

Entre colinas suaves e bosques de figueiras, vivia a família Cundira, mestres da argila e do fogo, conhecidos por moldar o barro como quem escreve orações sobre a terra.

Mas o maior tesouro daquela casa era a sua filha: Yehlisa.

O seu nome, revelado pelos sacerdotes, significava: "Paz e Harmonia na Natureza".

Quando nasceu, o vento dançou sobre os telhados e as águas do rio estremeceram de alegria, como se o universo reconhecesse nela uma canção antiga.

Yehlisa cresceu entre cântaros, tangendo um instrumento herdado: a Mbira, forjada em madeira sagrada e lâminas de metal colhidas nas terras da Pedra da Aurora. Diziam que naquelas teclas repousava o eco do Primeiro Som — aquele que despertara o mundo no alvorecer dos tempos.

Quando Yehlisa tocava, o vento fundia-se à melodia e as árvores acompanhavam o compasso. Sob o seu feitiço, o cervo repousava junto ao leão e as aves desciam para ouvir o elo entre o céu e a terra.

— Ela não toca a Mbira. Ela é a própria música — dizia o povo — Ela não fala com as criaturas: recorda-lhes que são uma só.

E os sábios murmuravam:

— Enquanto Yehlisa tocar, Maguezi viverá.

O Sopro de Ku-ngatwani

Contudo, nenhuma claridade prescinde da sombra.

Das fronteiras do silêncio, ergueu-se Ku-ngatwani, o Espírito da Desarmonia e Agente da Separação.

Não trazia corpo nem fogo, mas um sopro que corrompia o pensamento. Semeou a discórdia nas mentes, e cada semente gerou uma Ferra — criatura nascida do medo e da vaidade.

A primeira foi a Ferra do Ego, de chifres polidos, que sussurrava:

— És maior que o teu irmão.

E os homens ergueram cercas e muros, separando o que antes era comum.

A segunda foi a Ferra do Medo, de hálito amargo, que vaticinava:

— A escassez virá.

E o povo, mesmo no meio da abundância, começou a desconfiar do amanhã.

A terceira foi a Ferra do Apego, de pele espessa e passo lento, que prendia os corações às aparências, e a quarta, a Ferra da Distração, que lançava mil brilhos falsos para afastar o olhar do essencial.

Quando estas quatro marcharam sobre Maguezi, o som cessou.

O vento calou.

As flores não abriram.

Os rios esqueceram o seu curso.

Pela primeira vez, a Mbira silenciou.

O Silêncio e o Despertar

Ao sexto dia, Yehlisa, sentindo o peso da sombra, refugiou-se nas colinas onde o vento ainda guardava o nome das estrelas. Ajoelhou-se junto ao rio, mas as águas estavam imóveis.

— Ó Mãe-Terra — clamou ela —, que segredo esconde este silêncio?

A Terra respondeu num murmúrio:

— Teus irmãos esqueceram quem são. O som não se perdeu; deixou apenas de ser ouvido.

Yehlisa chorou. As suas lágrimas caíram sobre a Mbira e brilharam como estrelas. E então ela compreendeu que a cura não viria de novas notas, mas do reencontro com o som que dorme em cada peito.

A Canção da Restauração

Na manhã seguinte, sob o primeiro raio de sol, Yehlisa começou a dedilhar o seu instrumento. Mas o som era diferente. Era o cântico da aceitação — a vibração da paz silenciosa, o eco do amor sem condição do sereno retorno à unidade.

As notas elevaram-se como espirais de ouro.

Penetraram o céu, preencheram a terra e despertaram o princípio da vida.

Até o tempo parou — reconhecendo o som que o gerara.

As Ferras, que até então avançavam como um estrondo de desarmonia — um turbilhão de sombras irregulares, olhares de rapina e rugidos que feriam o silêncio — estancaram ao ouvir o som. Rugiram e avançaram, mas, ao cruzarem o círculo do prado, foram tocadas pela pureza do som. A treva nelas recordou a própria luz. Os seus olhos de ira tornaram-se espelhos da memória antiga.

E, uma a uma, abrandaram os passos. Depois, ajoelharam-se.

Repousaram a cabeça sobre a terra, não por derrota, mas em reverência ao som que as chamava de volta à sua origem.

E o povo, ao vê-las repousar, em quietude, sentiu algo dentro de si também silenciar — como se o medo, que antes os apertava, finalmente encontrasse descanso.

A música de Yehlisa libertava — não dominava.

Dissolvia — não destruía.

Curava, sem se impor.

Era o sopro do Equilíbrio que acolhe tudo sem lutar.

E assim, o nome de Ku-ngatwani, o Espírito da Dissonância, foi levado pelo vento — não vencido, mas diluído pela consciência que o reconheceu sem temor.

O eco do seu nome perdeu-se no horizonte, como sombra que não encontra corpo.

Diante daquele som, as forças que haviam marchado sob o sopro de Ku-ngatwani sentiram o peso da própria sombra. Aquilo que antes lhes dava poder tornara-se vazio. Incapazes de resistir à harmonia que ali ressoava, a ilusão que as sustentava desfez-se como sombra diante da luz.

A Pedra da Aurora reacendeu no coração da cidade, irradiando uma luz tão viva que parecia nascer de todas as direcções. O ouro e os diamantes já não brilhavam por si — reflectiam algo maior.

O povo, ao ver o clarão, reconheceu: Yehlisa havia despertado o Som do Princípio — o Sopro Original que dá vida a tudo.

Então, um silêncio profundo caiu sobre a cidade.

E desse silêncio nasceu a compreensão:

— Nada brilha por si mesmo — disseram os anciãos, com os olhos postos no brilho que emanava de cada rosto — Tudo o que existe apenas reflecte o que o coração emite.

E assim, a luz que inundava Maguezi deixou de vir do céu — passou a vir de dentro.

A Voz que Nunca se Cala

Concluída a obra, Yehlisa olhou sorridente para a cidade, agora refulgente como uma estrela viva. Enquanto tocava a última melodia, um raio de luz desceu e envolveu o seu corpo numa claridade translúcida. Diz-se que o seu corpo se dissolveu em brilho.

A Mbira caiu ao chão, mas quando o povo ali chegou, encontrou apenas o vento — e o vento tinha som.

Desde então, nas noites em que a cidade dorme em paz e o coração humano recorda a beleza, ouve-se, ao longe, uma música que parece vir das colinas — suave como o sopro sobre as águas, profunda como o silêncio entre as estrelas e eterna como a própria luz que canta em Maguezi.

— É Yehlisa — dizem os antigos — guardiã do Primeiro Som, tangendo para manter a harmonia entre os mundos.

Epílogo

Assim se cumpre o pacto:

"Enquanto houver música, haverá vida.
Enquanto houver vida, a Luz de Maguezi não se apagará."

Por isso, quando as sombras se aproximam, o povo reúne-se e diz aos filhos:

— Escutem com o coração, pois a paz não se aprende — ouve-se.

Os sacerdotes encerram o rito com a promessa:

— Yehlisa não partiu. Ela é a nota que liga o homem à eternidade. Quando o vento cantar, saibam: é Maguezi a respirar.