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Livro VI · Volume 1

O Conto da Árvore Sagrada

A jornada de Magna · ≈ 16 minutos de leitura

A história que se segue não começa em Maguezi, a cidade misteriosa cuja entrada apenas os de intenção pura conseguiam encontrar. Começa com Magna, uma jovem que crescera cercada pela instrução e protecção do pai, e pelo amor e cuidado da sua mãe.

Desde criança, Magna frequentara as melhores escolas da sua terra e aprendera a linguagem, os costumes e a postura das mais altas classes da sociedade. O seu pai era um grande comerciante e mercador, conhecido pelas longas viagens de negócios que fazia através de diferentes regiões. Na maior parte dessas jornadas, levava consigo a esposa e a filha única — jovem de beleza singular, admirada por onde passava.

As viagens ao lado do pai e o contacto com clientes de muitas terras fizeram de Magna uma jovem habilidosa na comunicação e versada em diversos idiomas. Herdara do pai o talento para a negociação e a eloquência no trato com as pessoas; da mãe, recebera um discernimento raro para os cálculos e para a administração das contas.

O ambiente dos negócios moldou nela uma presença firme e majestosa. A sua fala era clara e segura; o olhar, puro e objectivo, parecia capaz de fazer o oculto revelar-se diante dela.

Os pais sonhavam que Magna herdasse e desse continuidade aos negócios da família. O pai falava-lhe constantemente sobre estratégias, rotas comerciais e propriedades. A mãe, por sua vez, preocupava-se mais em vê-la encontrar um jovem digno, alguém com quem pudesse partilhar os segredos do amor e, um dia, lhe dar netos.

Mas, entre todos os ramos do conhecimento e do comércio, havia apenas um que verdadeiramente fascinava Magna: o das antiguidades.

Ela nutria uma profunda paixão por tudo o que fosse antigo.

Durante as viagens, encantava-se com os objectos antigos que ornamentavam casas, aposentos e salões dos parceiros comerciais do pai. Diante de cada peça, sentia como se uma história inteira despertasse silenciosamente diante dos seus olhos, como imagens projectadas numa tela invisível.

Era como se aquelas antiguidades aguardassem por ela — desejosas de transmitir as memórias e heranças que guardavam através dos séculos.

Por isso, Magna nunca perdia a oportunidade de encontrar-se, ora com geólogos, para contemplar minerais e formações ancestrais; ora com biólogos, para ouvir falar de plantas e animais raros; ora com arqueólogos, para conhecer descobertas relacionadas a ruínas, utensílios e civilizações antigas.

A Emboscada

Certa vez, entendendo que chegara o momento de Magna assumir maiores responsabilidades, os pais confiaram-lhe a liderança de uma importante viagem de negócios. Prepararam cuidadosamente as mercadorias, os contratos e todos os registos necessários para a negociação. Entre os acompanhantes seguia também o mais antigo secretário e conselheiro comercial do seu pai, homem experiente e de absoluta confiança.

Para uma primeira viagem sem a presença dos pais, Magna mostrou-se irrepreensível.

A sua postura impressionava tanto quanto a sua inteligência. Falava com segurança, negociava com firmeza e sabia adaptar-se aos costumes de cada lugar com rara elegância. Muitos admiravam a maturidade daquela jovem que, apesar da pouca idade, parecia carregar a serenidade e a percepção de alguém muito mais velho.

Ainda assim, naquela terra distante, havia quem a observasse com estranheza.

Alguns viam nela apenas uma jovem excêntrica, fascinada por objectos antigos e por relíquias que, para a maioria das pessoas, já não possuíam qualquer valor ou utilidade. Enquanto outros buscavam ouro, propriedades e poder, Magna demorava-se contemplando peças esquecidas, ruínas silenciosas e artefactos consumidos pelo tempo.

Mas enquanto ela se maravilhava com as memórias ocultas do passado, o perigo aproximava-se em silêncio.

No caminho de regresso, a caravana sofreu uma emboscada.

Os assaltos a comerciantes não eram incomuns naquelas rotas, mas, desta vez, Magna não estava sob a presença protectora do pai. O ataque surgiu rápido, violento e confuso. Gritos romperam a noite; animais dispersaram-se; mercadorias tombaram ao chão enquanto os homens tentavam defender-se e salvar o que podiam.

No meio do caos e à fuga dos ladrões, o grupo conseguiu encontrar abrigo num pequeno bosque escondido entre as colinas, onde permaneceram até que a claridade da manhã lhes permitisse reorganizar-se.

Mas, quando o dia finalmente nasceu, Magna já não estava entre eles.

Procuraram-na por toda a parte.

Chamaram pelo seu nome entre as árvores, seguiram pegadas incertas, vasculharam os arredores do bosque e os caminhos próximos da estrada. Contudo, nenhum sinal dela foi encontrado.

Ao regressarem à cidade e levarem a notícia à família, o desespero caiu sobre a casa como tempestade.

Os pais mergulharam em pranto.

Usaram toda a influência que possuíam para perseguir os bandidos e obter respostas. Homens foram enviados às estradas, aldeias e mercados distantes. Informações eram compradas, rumores seguidos, suspeitos interrogados. Porém, embora alguns assaltantes tenham sido encontrados, Magna não estava entre eles.

E, mesmo no meio da dor, ao medo e às lágrimas, algo estranho permanecia no coração dos pais.

Uma paz inexplicável.

Era como se, apesar da distância e do desaparecimento, sentissem que a filha não estava longe — nem perdida, mas guardada em algum lugar que não conseguiam compreender. Contudo, não sabiam interpretar aquele sentimento misterioso que, silenciosamente, insistia em permanecer dentro deles.

O Despertar sob a Sombra Sagrada

Magna acordou sob a copa de uma árvore enorme. Os seus sentidos voltaram lentamente, impregnados por um perfume doce e ancestral, como se o próprio ar guardasse memórias antigas. Ao abrir os olhos, notou duas lindas criancinhas de beleza serena — olhares estelares e sorrisos pacientes — que a observavam como se aguardassem aquele momento há muito tempo. Por um instante, achou que estivesse a sonhar, ou que já tivesse atravessado para um outro plano além da vida terrena.

Foi quando uma voz mansa e suave penetrou não apenas os seus ouvidos, mas também o coração. Era uma voz semelhante à de um avô afectuoso despertando a sua netinha querida. Magna sentiu-se envolvida por uma estranha sensação de amparo, como se repousasse nos braços de alguém invisível. Contudo, ao redor, não via ninguém além das crianças e da enorme árvore.

Com o seu dom de olhar perspicaz, olhou novamente para o tronco colossal, como se ainda não o tivesse visto de verdade. E, naquele instante, a sua percepção aprofundou-se — não pelos olhos do corpo, mas pelos olhos capazes de reconhecer o que é ancestral.

Aquela não era uma árvore comum.

Era a testemunha silenciosa das alegrias e tristezas daquele povo. Guardava em si os romances, as vaidades e os suspiros dos pequenos filhos do Sábio decorador do universo. Não se sabia quem a havia plantado, nem há quanto tempo ela existia. Pois, apesar de tenra e robusta, era ao mesmo tempo tão frondosa.

Os seus ramos estendiam-se como braços que tocavam os segredos do céu, brincando onde as nuvens escondem as fadas dos mortais. O seu diâmetro podia até esconder do néscio planetário a própria grandeza do universo.

A sua copa era tão vasta que, sob sua sombra, ninguém resistia à sedução de estar sob aquele sombreiro que fazia a luz do sol sussurrar raios leves e brilhantes através da sua folhagem. E dizia-se que, durante a noite, as folhas faziam ecoar os cantares daqueles seres de rara graça, bondade e beleza que habitam acima das nuvens, nos altos do firmamento.

Contam os sábios que aquela árvore não se alimentava apenas da terra, a partir de suas raízes, mas também do néctar trazido nas nuvens por aqueles imortais guardiões dos mundos do Criador. Era uma ponte viva entre o que está abaixo e o que está acima. Já não pertencia apenas ao cuidado dos homens; tornara-se digna da atenção dos deuses.

Era à volta dela que se erguia a praça principal da cidade, e o poste de luz fora colocado exactamente sobre a sua presença sagrada. Por isso, podia ser avistada mesmo de muito longe.

Mas havia ainda outro segredo guardado pelo tempo.

Ao fim de cada cem anos, apenas um de seus ramos caía — não por acção humana, mas por desígnio invisível. E nenhum instrumento comum conseguia cortar aquela madeira. Ao perceberem que o ramo se quebrava naturalmente ao tocar uma pedra específica da praça, os habitantes compreenderam, então, que somente aquela pedra podia trabalhar a madeira sagrada. Desde esse dia, a colheita dos ramos transformou-se num acto cerimonial.

Cada ramo caído era recebido com reverência. E tudo o que dele surgia era considerado raro e precioso, pois carregava a graça dos seres elementares da terra e dos seres celestiais das alturas, trazendo consigo inúmeras memórias daquele povo.

Embora Magna não soubesse determinar a idade exacta das antiguidades, havia nela uma faculdade singular: tudo o que era antigo parecia despertar diante da sua presença — e com ela os objectos “falavam”.

Foi então que a árvore se revelou mais profundamente para Magna, confirmando que a voz vinha dela mesma — a Árvore Sagrada. Com ternura, confortou Magna e disse-lhe que alguém viria buscá-la, mas não para a casa dos seus pais, por enquanto.

Ao olhar em redor, Magna percebeu que a manhã apenas começava a nascer. Encontrava-se no centro de uma praça adornada por um paisagismo exuberante. Mais além, avistou uma cidade de casas simples e ruas modestas, mas envoltas num brilho que não pertencia aos olhos físicos. As ruas eram cheias de cores e vida, como se anjos atravessassem silenciosamente os ramos e flores, espalhando uma brisa suave.

Aos poucos, as ruas ficavam repletas de pessoas de roupagem simples. Embora umas parecessem seguir para o trabalho, Magna admirou-se ao perceber que demoravam longos instantes apenas a cumprimentar-se umas às outras. Ela conhecia aquele tipo de saudação calorosa apenas em ambientes familiares íntimos ou em ocasiões reservadas às grandes personalidades. Contudo, ali, as pessoas tratavam-se mutuamente com uma dignidade luminosa, mesmo nas tarefas mais comuns do quotidiano.

Os Filhos da Luz

Em meio àquela admiração silenciosa, aproximou-se uma senhora de idade avançada, mas cuja postura e presença conservavam a vivacidade de alguém que se recusara a entregar a juventude ao tempo. Caminhava com serenidade, acompanhada de dois jovens irmãos: uma rapariga claramente mais velha que Magna e um rapaz alto, de porte simples e tranquilo, aparentando a mesma idade que ela.

— Não é esta a nossa visitante? — perguntou a anciã, dirigindo-se a Magna com um sorriso caloroso e um olhar profundamente acolhedor.

Antes mesmo que Magna pudesse responder, os dois irmãos adiantaram-se. A jovem segurou-lhe a mão com entusiasmo e declarou, radiante:

— Olá! Eu sou Dória, e este é o meu irmão Osvaldo. Vamos mostrar-te a nossa casa. Ficarás connosco nestes dias!

Mal terminou a apresentação, uma verdadeira enxurrada de perguntas escapou-lhe dos lábios, como água de nascente que não consegue conter-se:

— Quem és tu afinal? De onde vens? Como chegaste aqui? És filha da Árvore-Mãe? Claro… só podes ser! Que sorte a minha! Conta-nos tudo! Sabes voar?

— Dória, não a assustes — repreendeu a senhora idosa, com doçura na voz. — Ela ainda precisa descansar, alimentar-se e compreender onde está. O tempo aqui corre diferente, não há pressa para perguntas.

Osvaldo aproximou-se então de Magna e pediu desculpas pelo entusiasmo da irmã. Explicou-lhe que o pai de ambos era o actual dirigente e representante da Cidade de Maguezi, e que a sua casa ficava próxima da praça da Árvore Sagrada.

Durante a caminhada pelas ruas vibrantes, Magna não conseguia deixar de observar aqueles dois irmãos que agora a guiavam. E, naquela contemplação silenciosa, começou a perceber que não estava apenas a ser acompanhada — estava a ser acolhida por duas forças antigas que Maguezi guardava como um tesouro.

Osvaldo caminhava como quem não precisava de pressa, porque já sabia onde o tempo desejava chegar. Havia nele um governo silencioso: o domínio sereno de quem escuta antes de agir, de quem sustenta sem oprimir. Era alto — não apenas na estatura, mas na forma como se inclinava para acolher o mundo. Os seus olhos tinham a cor da terra molhada depois da chuva: escuros, profundos e vivos. Quando sorria, era como se uma porta antiga se abrisse lentamente, rangendo apenas o suficiente para lembrar que ali habitavam histórias.

Falava pouco, mas as suas palavras possuíam o peso exacto: nem mais, nem menos. E, quando se calava, o seu silêncio era pleno, como um cesto de frutos maduros repousando à sombra.

Dória, pelo contrário, parecia uma luz que aprendera a caminhar.

Os seus cabelos pareciam feitos de madrugadas sucessivas — castanhos que, ao toque da luz, revelavam fios dourados escondidos. Os olhos, grandes e vivos, eram como perguntas que o mundo ainda não conseguira responder. Dória não caminhava: dançava sem música, corria sem destino, parava sem motivo aparente — e em cada pausa, descobria um tesouro: uma flor que só desabrocha para quem tem tempo, uma pedra que brilha por dentro, um pássaro que repete seu nome em segredo.

Falava como quem tece. Cada frase era um fio ligando o visível ao invisível, e quem a escutava sentia-se mais unido ao mundo.

Juntos, Osvaldo e Dória pareciam duas partes de uma mesma árvore: ele, a raiz profunda que sustenta sem ser vista; ela, o ramo luminoso que se ergue para abraçar o céu.

E Magna, que sempre soubera ouvir a voz das coisas antigas, percebeu que ambos guardavam um segredo ainda mais profundo: o equilíbrio entre a força que protege e a luz que partilha.

Foi então que Osvaldo, com a voz calma que contrastava com a energia da irmã, começou a explicar:

— Magna, peço que perdoes o entusiasmo de Dória. A tua chegada é um acontecimento sem precedentes em Maguezi.

— Sem precedentes? — perguntou Magna, sua eloquência natural voltando aos poucos. — Eu lembro-me apenas do bosque… dos ladrões… e depois despertei sob aquela árvore maravilhosa.

— Aquela é a Árvore Sagrada de Maguezi — explicou Osvaldo. — Desde a fundação da Cidade de Luz, alguns de nós receberam o dom de compreender o sussurro das plantas e a linguagem do vento entre as folhas. Mas, em eras e eras, nunca se ouviu a voz directa da Árvore Sagrada. Ela sempre falou por sinais, sensações e pressentimentos… nunca com voz semelhante à nossa.

Dória, incapaz de conter-se, interrompeu imediatamente:

— Mas desta vez foi diferente! A voz dela ressoou na mente do nosso pai, o Chefe da Cidade. Foi alto e claro! Disse que a Jovem Magna seria trazida até aqui e que ele deveria assegurar pessoalmente que fosses acomodada com honra, cuidado e carinho. O nosso pai ficou em choque… e a cidade inteira está em alvoroço!

Magna ia absorvendo aquelas palavras enquanto a sua postura majestosa e olhar objectivo voltavam com intensidade.

— A Árvore Sagrada… falou por minha causa? — murmurou, voltando-se na direcção da praça. — Sempre senti que os objectos antigos guardavam histórias. Mas aquela árvore… ela não guarda apenas histórias. Ela é a própria história viva.

— Exactamente — respondeu Osvaldo, contemplando-a com admiração serena. — E parece que tu possuis a chave para ouvir aquilo que ela deseja revelar. O nosso pai acredita que a tua vinda não aconteceu por acaso, mas por necessidade — talvez para Maguezi… talvez também para o teu próprio mundo.

— Vamos, vamos! — apressou Dória, pegando novamente na mão de Magna. — Há tanta coisa para te mostrar! A comida aqui é deliciosa, e as roupas não prendem o movimento, e podes pintar as paredes da casa se quiseres!

Magna sorriu.

E, naquele instante, sentiu a mesma paz estranha que, em algum lugar distante, também repousava no coração de seus pais.

Compreendeu então que estava exactamente onde deveria estar. E, enquanto caminhava entre aqueles dois irmãos — um com a força antiga dos que guardam, outro com o brilho eterno dos que partilham — compreendeu que Maguezi não era apenas uma cidade. Era um modo de ser no mundo.

A Xamã das Memórias

No segundo dia, Magna já se identificava profundamente com cada aspecto da cidade. A simplicidade daquele lugar não a incomodava; pelo contrário, era como se a riqueza espiritual e a vivacidade de Maguezi preenchessem espaços dentro dela que antes desconhecia.

Os irmãos acompanhavam-na constantemente, conduzindo-a pelas ruas, jardins e praças, mostrando-lhe os costumes, a cultura rica e as tradições ancestrais fundamentadas no respeito à Mãe-Terra e ao Pai-Céu.

Aos poucos, a percepção dos habitantes sobre Magna começou a mudar. Ela deixara de ser vista apenas como uma visitante.

Quando caminhava pelos jardins, as plantas pareciam inclinar-se suavemente na sua direcção, como se reconhecessem nela uma presença antiga e familiar. Ao tocar em antigos utensílios de cerâmica ou nas pedras que pavimentavam as ruas havia séculos, Magna detinha-se em silêncio. Então, com o seu olhar perspicaz, começava a narrar as histórias daqueles que os haviam moldado: os sentimentos que carregavam, os sonhos que cultivavam e a maneira como a luz de Maguezi influenciara as suas vidas.

Ela contava tudo o que esses elementos transmitiam para ela. Não apenas acontecimentos passados, mas também a essência viva que permanecia guardada naquelas coisas antigas, como brasas silenciosas escondidas sob as cinzas do tempo.

Os habitantes de Maguezi, que tinham profunda conexão com o presente vivo, maravilhavam-se com a capacidade de Magna de dar voz às memórias esquecidas da terra, dos objectos e dos lugares.

Sem que a própria Magna percebesse, passou a ser tratada com uma reverência delicada, misturada com carinho e admiração. Pelas ruas, ouviam-se murmúrios suaves à sua passagem:

— Lá vai a Xamã…

— A que escuta o que o tempo guardou…

— A escolhida da Árvore Sagrada.

E Magna, filha de mercadores e viajantes, compreendeu então que encontrara em Maguezi o mais raro e precioso de todos os mercados: o lugar onde se trocavam não riquezas materiais, mas memórias, espíritos e heranças eternas.

O Encontro com o Líder e a Voz do Destino

Uma semana havia passado desde que Magna despertara sob a Árvore Sagrada. Durante aqueles dias, caminhava pelas ruas vibrantes de Maguezi ao lado de Dória e Osvaldo. Contudo, uma pergunta sempre lhe voltava aos lábios:

— Onde está o chefe desta terra?

Dória, com o seu sorriso tranquilo, sempre a acalmava:

— Não te preocupes, Magna. Ele apenas cuida dos assuntos que mantêm o pulsar da cidade. Tu o verás no momento certo.

O momento chegou numa manhã ensolarada.

Enquanto a família se dirigia ao local do pequeno-almoço, Magna percebeu uma figura nova entre eles. Era um homem jovem na aparência, mas com um olhar que carregava a profundidade de muitas décadas. Servia as refeições com uma atenção zelosa, convidando cada um a sentar-se com a naturalidade de quem serve sem diminuir-se.

— Hehe! Então hoje chegou o grande dia… Qual será o sabor desta manhã? — perguntou Dória, com um tom de sarcasmo carinhoso e elogio para o homem que servia.

Osvaldo inclinou-se discretamente para Magna e murmurou:

— Este é o nosso pai. Hoje faremos a refeição juntos.

Magna ficou atónita.

Aquela figura simples, de gestos suaves e presença acolhedora, era o homem sobre quem repousavam os destinos de Maguezi? Custava-lhe acreditar. Na sua terra, os líderes vestiam-se de solenidade e distância. Ali, porém, o chefe servia os outros com as próprias mãos.

— Olá, Magna. Há dias aguardava a oportunidade de conhecer-te pessoalmente — disse o chefe, com uma voz que parecia um abraço. — Perdoa-me por não te receber antes e por minha ausência nestes últimos dias.

Magna, instintivamente, empertigou-se. Recordou-se da educação rígida de sua terra, dos protocolos das famílias influentes, da maneira correcta de se apresentar diante de autoridades. Preparava-se para fazer uma reverência formal quando a senhora idosa — mãe do chefe — surgiu atrás dela.

Com delicadeza, segurou-lhe a mão esquerda e envolveu-lhe o ombro com o braço direito, desfazendo toda a tensão.

— Está tudo bem, Magna querida… Está tudo bem. Vamos — disse ela com ternura, conduzindo-a até à mesa.

— Eu sou Magna. Sinto-me honrada, meu senhor — respondeu Magna, tentando manter a etiqueta.

Nesse instante, todos à mesa riram com doçura.

Dória, entre uma garfada e outra, explicou-lhe:

— Magna, nesta terra ninguém é maior do que o outro. Se qualquer comportamento de superioridade aparecer entre nós, a cidade para de brilhar. Maguezi vive da harmonia. Somos um só corpo: com as pessoas, com os animais, com as pedras e com a própria terra. Apesar de ser o líder, o papá é um ser como tu e eu. Aqui respeitamo-nos como família e damos uns aos outros o direito de simplesmente ser.

Magna silenciou-se.

Havia naquela simplicidade uma grandeza que nenhuma escola lhe ensinara.

A refeição decorreu em alegria leve e natural. O ambiente era tão acolhedor que, pouco a pouco, Magna esqueceu as formalidades e permitiu-se apenas existir entre eles.

Ao final do pequeno-almoço, o chefe pediu gentilmente que ela permanecesse.

Então apresentou-se formalmente como representante legal de Maguezi. Contudo, à medida que falava, sua voz deixou de soar como a de um governante e tornou-se a de um contador de histórias. Narrando com serenidade, falou-lhe sobre o velho ancião que sonhara a Cidade de Luz e explicou que o Emblema de Luz, erguido na praça central, era o coração de Maguezi.

— Nestes dias em que estive ausente — disse ele — reuni-me com os anciãos para reflectirmos sobre o significado da tua chegada. Tu és a primeira pessoa trazida directamente pela Árvore Sagrada.

Magna então contou-lhes toda a sua jornada: a viagem comercial, a emboscada, o bosque, o despertar entre raízes ancestrais e as duas criancinhas de olhos estelares que a observavam quando abriu os olhos pela primeira vez.

Enquanto narrava, percebeu que um silêncio respeitoso pairava sobre os presentes. Foi então que compreendeu, pelo olhar dos que a ouviam, que ninguém além dela havia visto as duas crianças.

O Oráculo e o Dom da Pureza

No dia seguinte, Magna foi levada perante o Conselho dos Anciãos.

Eram figuras cuja sabedoria lembrava os oráculos do céu. Ao ouvirem o relato da jovem, os anciãos não reagiram com julgamento, mas com lágrimas. Um a um, levantaram-se e envolveram Magna em abraços calorosos, cheios de ternura e gratidão, como se a própria Árvore-Mãe lhes tivesse respondido através daquela jovem estrangeira.

Eles reconheceram nela o atributo que a Árvore queria que o povo acolhesse. Magna possuía a Pureza de Intenção. Ela não via com os olhos que julgam formas, tamanhos ou estados externos; ela via a vida nua e pura em tudo. Onde outros viam um objecto velho, ela ouvia um coração que bate.

Pela primeira vez em muitos dias, pensou profundamente em seus pais.

Apesar da paz que encontrara em Maguezi, apesar do carinho de Dória, da serenidade de Osvaldo e da sabedoria daquele povo, a piedade filial falava alto dentro dela. Sabia que os seus pais a esperavam.

A Árvore Sagrada, sentindo essa conexão, falou novamente ao chefe: Magna deveria partir em dois dias. Mas a sua partida seria um último serviço à cidade.

A Voz Original e o Grande Alerta

Dois dias depois, toda a cidade reuniu-se na praça central.

Magna permanecia ao centro, ladeada por Dória, Osvaldo e a avó. Quando o chefe e os anciãos chegaram, uma música suave começou a ecoar por toda Maguezi. Não vinha de instrumentos humanos, mas das próprias casas, do vento entre as folhas e do pulsar silencioso da terra — como um prelúdio invisível para a voz da Árvore Sagrada.

Então, diante do povo, Magna começou a resplandecer.

O seu corpo resplandecia como uma estrela terrestre. Era como se ela servisse de “antena” através da qual a voz da Árvore pudesse alcançar o íntimo de cada habitante.

E a voz falou.

Não aos ouvidos do corpo, mas ao interior de todos os presentes.

— Povo de Maguezi — a voz mansa e suave ecoou em cada mente — Continuais a manter o legado do sonho e a acolher com amor aqueles que chegam até vós. Mas ouvi agora o grande alerta: um perigo iminente se aproxima.

Um silêncio profundo tomou a praça.

E a voz prosseguiu:

— Enquanto o progresso cresce fora e dentro da cidade, uma força externa introduz entre vós um ruído suave. Ela não chega como guerra nem como tempestade, mas nasce das distrações, do excesso e do esquecimento. E esse ruído, pouco a pouco, faz com que o povo perca a capacidade de ouvir o Som Original da criação.

Enquanto a Árvore falava, imagens reais atravessavam a mente de todos, mostrando o perigo de verem a cidade dos sonhos desmoronar sob o ruído do materialismo. Viam ruas antes vivas tornarem-se frias, pessoas caminhando sem se olhar, mãos cheias de riquezas, mas vazias de sentido, e crianças incapazes de ouvir o canto das plantas.

E então compreenderam.

O verdadeiro perigo não era a destruição da cidade pelas armas, mas a perda gradual da capacidade de ouvir o Som Original da criação — aquela harmonia invisível que unia a terra, os céus e os corações.

E a voz da Árvore tornou-se ainda mais suave:

“Quando o ruído do mundo se torna maior que a voz da vida,
até as cidades de luz começam a esquecer quem são.”

Muitos choravam em silêncio. Outros apertavam o peito, como se antigas memórias despertassem dentro deles.

E, no clímax daquele brilho e daquele ensinamento, ninguém percebeu o instante exacto em que Magna desapareceu.

O Regresso e a Semente do Bem

Na manhã seguinte, muito cedo, uma figura solitária surgiu diante dos portões da casa dos mercadores, na terra natal de Magna. O seu corpo ainda conservava um brilho celestial, uma aura suave que nem a luz comum do amanhecer conseguia apagar.

— Magna! Magna voltou! — os gritos dos vizinhos e empregados ecoaram pelas ruas.

Seus pais saíram apressadamente, como quem desperta dentro de um sonho já anunciado. Na noite anterior, ambos haviam sonhado com aquele regresso.

E, ao verem a filha, não restou qualquer dúvida.

Magna correu para abraçá-los e, entre lágrimas e alegria, contou-lhes de Maguezi.

As autoridades locais e os céticos balançavam a cabeça.

— Pobre menina… — diziam. — O trauma do assalto confundiu-lhe a mente. Criou uma fantasia para suportar o sofrimento.

Alguns tentaram reduzir sua história ao silêncio do tempo. Mas os pais de Magna conheciam a verdade. A paz inexplicável que sentiram durante o desaparecimento da filha, assim como os sonhos partilhados nas mesmas noites, eram para eles sinais suficientes de que Maguezi existia.

Com o passar dos dias, Magna retomou os negócios da família. Contudo, já não negociava como antes. Agora, em cada objecto, procurava a memória escondida; em cada troca, buscava dignidade; em cada pessoa, tentava ouvir a vida por trás das aparências. Já não via o comércio apenas como lucro, mas como encontro entre histórias humanas.

E sempre que lhe perguntavam sobre os irmãos que a acompanharam durante aqueles dias de encantamento, Magna sorria.

Falava de Osvaldo, o guardião de mão leve e silêncio profundo; e de Dória, a menina de brilho antigo e coração dançante. Dizia que ambos eram a prova viva de que Maguezi existia, porque somente numa Cidade de Luz poderiam florescer juntos a raiz que sustenta e o ramo que abraça o céu.

E assim, o segredo da Cidade Maguezi continuou vivo, guardado não em mapas, mas naqueles que, como Magna, mantêm a pureza no olhar e protegem as sementes do bem. E na memória de todos que um dia ouviram esta história, Osvaldo e Dória permanecem — ele, como o poder de Deus que se faz silêncio; ela, como o ouro antigo que nunca se gasta, porque é feito de luz partilhada.

Afinal, Maguezi está sempre diante de nós, desde que saibamos ouvir o som original.