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Livro V · Volume 1

O Conto de Tsembissa

Crónicas da Cidade de Luz · ≈ 15 minutos de leitura

Dizem os mais velhos que Maguezi era, de facto, um paraíso perdido entre as terras do sul do grande Saara.

Nas noites densas, quando o véu da escuridão se estendia sobre os campos, a pedra sagrada no alto do poste central ardia com uma luz mais brilhante do que todas as estrelas juntas. Por isso aquela cidade era chamada Maguezi — a Cidade da Luz.

De dia, Maguezi era um lugar de puro magnetismo social. Os jardins familiares floresciam como tapeçarias vivas; os raios do sol sussurravam entre os ramos sombrios dos arvoredos; e as ruas corriam como rios de alegria. No parque, onde todos podiam divertir-se, a dor, o cansaço e até a fome perdiam o sentido mundano, como se fossem apenas sonhos maus esquecidos ao amanhecer.

Os campos eram vastos, cheios de gado e de plantações. Homens e mulheres dedicavam-se aos mais diversos ofícios, cada qual com a sua arte e empenho. A moeda quase nada valia ali, porque mais importante do que comprar ou vender era a troca de bens e serviços num ciclo contínuo de solidariedade.

Tudo florescia em harmonia.

Mas, entre as luzes daquela terra de fronteiras abertas, já espreitava um futuro sombrio, oculto nos céus. Ninguém imaginava que, muito antes do amanhecer, sombras serpenteavam pelas margens da cidade.

Eis que, certo dia, uma nuvem negra desceu sobre Maguezi como ladrão na noite.

Contaminou o coração de alguns homens. Estes já não conseguiam ver a própria luz. Entregaram-se então ao roubo, à ambição desmedida, à corrupção e às brigas insensatas. E, assim como era negra a nuvem, mais sombrias ainda se tornaram as acções dos malfeitores.

O medo tomou conta da cidade.

As ruas ficaram desertas. O silêncio tornou-se tão profundo que até os pássaros deixaram de cantar. E, oh!, até mesmo a pedra central — símbolo da alegria de Maguezi — apagou-se.

Rostos tristes e olhares cansados passaram a dominar a cidade outrora radiosa.

Mas havia uma família peculiar: a família Nyeleti, onde nascera Tsembissa.

Contam que Tsembissa veio ao mundo sorrindo, e todos os que se aproximavam dele sentiam uma inexplicável felicidade. A família Nyeleti cultivava flores, e por sua causa a cidade ainda conservava alguma cor no meio da tristeza.

O Livro das Virtudes

No meio do caos, Tsembissa permanecia sorridente. Os seus olhos brilhantes recordavam a antiga Maguezi, cheia de canto e alegria. Diz-se que, desde o dia do seu nascimento, ele via uma luz que jamais o abandonara. E todo aquele que buscava consolo encontrava nele força e coragem.

Certa noite, enquanto meditava no seu quarto, Tsembissa viu uma águia gigantesca entrar e pairar sobre ele.

Com o sopro das asas, a ave abriu o Livro das Virtudes Eternas — o mesmo que os seus pais lhe haviam oferecido ao nascer.

Esse livro guardava um mistério: só se abria nas páginas correspondentes à idade do varão. Quando bebé, eram os pais que lhe liam as palavras. Aos dez anos, já conseguia lê-las sozinho.

Agora, o livro abria-se na décima sexta página.

E, enquanto lia, o corpo de Tsembissa resplandecia verso após verso, como se cada palavra acendesse uma estrela dentro do seu coração.

As palavras soavam como cânticos vindos do próprio céu, chamando-o para uma missão:

“Coragem para o bem-fazer,
Verdade para a boa causa defender.
Oh, que força protege o indefeso!
Será sacrifício trazer à luz um sorriso?
Acaso dos julgamentos sairás ileso?
Quem há que ouve o canto das aves,
E o que a brisa sussurra através das árvores?
Lembra-te do amor.
Lembra-te do amor.”

Ao terminar a leitura, Tsembissa disse consigo mesmo:

— Quero ajudar os que perderam a luz: os pobres, os aflitos, os que há muito já não sabem sorrir.

Então procurou os amigos mais humildes e simples, e revelou-lhes o seu plano.

Mas eles, tomados pelo medo, responderam:

— Como faremos isso? Se nos levantarmos, os corrompidos virão e matar-nos-ão. Nem armas sabemos empunhar!

Tsembissa reflectiu por um instante. Depois olhou-os nos olhos e respondeu:

— Meus amados, valentes como a lua entre as estrelas! Quem resistirá à força da virtude, da integridade e do amor? Não precisamos de armas. Nossa batalha não é contra homens, mas contra a nuvem da escuridão. Basta afastá-la para que a luz volte a brilhar sobre Maguezi. A natureza será a nossa aliada! Vamos às ruas — não com medo, mas com esperança no rosto, mansidão nas palavras e coragem no coração. A vontade falará mais alto, a razão descerá do céu e quebrará as portas do inferno. Maguezi voltará a ser um paraíso!

E assim partiram os jovens valentes.

As suas armas eram apenas o sorriso, a virtude e a integridade.

A esperança era tão grande quanto a alegria que carregavam.

E enquanto caminhavam, cantavam:

Existe ouro em ti?
É por isso que o teu coração brilha?
Se eu pedir, tu darás?
Se eu precisar, posso tomar?

Onde estão as águas brilhantes
Que lavaram as cinzas dos teus olhos?
Se eu pedir, tu darás?
Se eu precisar, posso tomar?

Por que não consigo ver o óleo aromático?
É por isso que a tua pele é macia e leve?
Se eu pedir, tu darás?
Se eu precisar, posso tomar?

Não acredites neles,
Porque tu és quem tu és,
E não aquilo que possuis.

A Curandeira

Enquanto os preparativos avançavam, a curandeira da cidade — também membro do conselho local — aproximou-se do patriarca da família Nyeleti, movida pelo desejo de impedir Tsembissa de seguir adiante. Era conhecida não apenas pelos seus dons de cura, mas também pela influência que exercia entre o povo, destacando-se nas artes da persuasão pública.

— Ó venturoso descendente dos fiéis — disse ela — hoje conheci a alma por meio da qual a graça divina se manifesta.

O patriarca respondeu com humildade serena:

— Ó benfeitora dos homens, tudo o que existe debaixo dos céus pertence ao Criador. Somos apenas mordomos, e um dia prestaremos contas de tudo o que nos foi confiado. Mas, quanto ao meu neto, diz-me: qual é a causa de tua visita a esta casa, que procura servir aos desígnios do Altíssimo?

A curandeira, percebendo a sabedoria do velho, pensou consigo: “Se tal é a visão do ancião, qual não será a conduta do seu neto?”

Ainda assim, tentou convencê-lo a impedir Tsembissa, temendo a inveja dos homens e as perseguições que poderiam cair sobre ele. O patriarca, porém, limitou-se a agradecer-lhe a preocupação, sem alterar a sua decisão.

Dias depois, Tsembissa percebeu a inquietação do avô e perguntou-lhe:

— Qual é a causa de tua aflição, querido cokwana? Por que suspiras e te atormentas tanto?

O patriarca respondeu:

— Sei de tua resolução em seguir os princípios do amor e da benevolência, conforme as tradições dos nossos ancestrais. Mas temo que, nestes tempos sombrios, apenas perseguições e infortúnios te aguardem.

Tsembissa, luminoso como o sol da manhã, sorriu com ternura e disse:

— Ó avô, bondade e compaixão encarnadas, tu és o guia desta casa e a luz que sustenta este lar sagrado. Peço tua bênção sobre teu neto e sobre todo o caminho que devo trilhar, pois em tua graça encontro a certeza de que nenhum mal prevalecerá contra mim. Que tua palavra, pronunciada em nome do Altíssimo, seja o escudo que afaste a aflição e a chama que fortaleça o meu coração. Sob a protecção do teu amor, caminharei em paz, preservado da maldade dos homens.

O ancião ficou estupefacto, dividido entre o escândalo e o encanto diante das palavras de Tsembissa. Para esconder a súbita comoção, ergueu a voz num tom severo que mal sustentava a autoridade:

— Fora daqui! Desde quando ousas dirigir-te a mim com tamanha lisonja? Esqueceste-te, por acaso, de que sou o ancião desta família?

Tsembissa, brilhante e inalcançável como sempre, afastou-se aos pulos e gritou de longe, num tom ao mesmo tempo brincalhão e afectuoso:

— Ó velho, os céus são minhas testemunhas: eu não estou sozinho!

E assim desapareceu da presença dos seus familiares, deixando no ar o eco da sua alegria e o mistério da luz que carregava dentro de si.

A Marcha da Luz

Poucos dias após aquela conversa, algo novo começou a ressoar por aquelas terras. Os jovens caminhavam pelas ruas cantando e adornando a cidade com tudo o que tinham para oferecer: uns plantavam flores, outros traziam mudas de árvores; alguns espalhavam pinturas e poemas, enquanto outros ofereciam ajuda a quem encontrassem carregando algum fardo.

Ao ouvirem falar daquela transformação nas ruas, a Curandeira da cidade e os membros do conselho que permaneciam ligados à nuvem da escuridão foram tomados de fúria. A advertência levada à família Nyeleti tinha sido em vão.

Imediatamente procuraram uma forma de silenciar Tsembissa e os jovens valentes. Contudo, não ousavam confrontá-los directamente diante do povo, temendo tanto a honra da família Nyeleti quanto a crescente influência de Tsembissa.

Ninguém sabia ao certo como aqueles jovens — radiantes como o sol — apareciam e desapareciam pelas ruas. Mas, enquanto marchavam, toda a cidade os observava com respeito, e ninguém se atrevia a tocar-lhes.

Diz-se que, por onde quer que um deles passasse, uma espessa coluna de luz os acompanhava, brilhante como o sol ao meio-dia, iluminando tudo ao redor. Era um fenómeno que desafiava a razão, mas muitos juravam tê-lo testemunhado: tudo o que tocavam parecia despertar para uma nova vida.

E a beleza daquele acontecimento não era apenas visível.

Céus e Terra sejam testemunhas: das plantas erguia-se uma sinfonia perfumada, como se cada flor, cada folha e cada árvore cantasse em sua própria tonalidade antigas lembranças esquecidas. A harmonia espalhava-se pelo ar acompanhada de um frescor irresistível, capaz de aliviar até os corações mais cansados.

Muitos sentiam apenas a energia daquele fenómeno extraordinário. Mas alguns — os de coração puro e olhos voltados ao Criador dos céus e da terra — conseguiam discernir a verdadeira origem daquela melodia: era o próprio canto das plantas.

O cenário parecia impossível de descrever. A presença de Tsembissa e dos seus companheiros transformava Maguezi. Por onde passavam, despertavam na memória do povo as antigas lembranças do legado dos anciãos, e muitos começaram a perceber que haviam vivido durante anos sob o véu de uma grande ilusão de escuridão.

Quando viam um dos jovens aproximar-se, muitos exclamavam:

— Ó emissários dos céus! Quem foi que Deus enviou para nos despertar deste sono profundo, que quase nos fez esquecer a nossa herança de luz e de vida? Perdemos a luz em pleno dia. Queremos permanecer nesta claridade que também vive em vós!

Outros clamavam emocionados:

— Que Deus vos recompense com todo o bem, pois fostes vós que nos despertastes!

E havia ainda os que, tomados de coragem, diziam:

— É verdade! Seja como for, queremos caminhar convosco!

O Encontro de Tsembissa e Alina

Naqueles dias de fervor, uma notícia inquietante espalhou-se pela cidade: a filha do magistrado havia desaparecido após uma discussão cujos motivos ninguém conhecia ao certo. Como o magistrado era amigo próximo da Curandeira, muitos aconselhavam Tsembissa a redobrar a vigilância.

Mas, mesmo ciente das perseguições e do crescente descontentamento dos poderosos, Tsembissa continuava a surgir nas ruas com a mesma serenidade luminosa de sempre — tão misteriosamente quanto desaparecia.

Ora, certo dia, enquanto regressava pelos caminhos ocultos que conduziam à sua casa, ouviu uma voz suave e melodiosa chamá-lo:

— Tsembissa… Tsembissa… és tu?

Ao voltar-se, viu uma jovem aproximar-se a passos apressados. Era claramente mais velha do que ele e possuía uma beleza quase celestial: cabelos curtos, claros e sedosos, e olhos grandes luminosos que pareciam guardar a própria pureza.

— Tsembissa… és mesmo tu? — repetiu ela, já diante dele, com um sorriso delicado e um brilho fraterno no olhar.

O jovem observou-a atentamente. Embora a sua figura parecesse perfeita como uma visão saída dos sonhos, havia nos seus olhos um cansaço profundo e uma palidez que denunciavam sofrimento.

Então respondeu com gentileza:

— É verdade, ó senhora das beldades: de facto sou Tsembissa. Concede-me, porém, a graça de saber por que te escondes neste lugar recôndito, que se alimenta da ignorância dos citadinos.

A jovem franziu o rosto e, num tom de espanto, perguntou:

— O que pretendes dizer?

Tsembissa respondeu com a clareza serena de quem via além das aparências:

— Nem tu conheces este lugar, nem este lugar reconhece a tua presença. Não és daqui. E ainda não conheces a chave que permite compreender o que existe diante dos teus olhos. Que força há debaixo dos céus capaz de arrancar uma pérola do seu lar sagrado e lançá-la ao abandono?

Ao ouvir aquelas palavras, Alina percebeu que Tsembissa não era apenas um rapaz comum, mas uma alma iluminada cuja presença transmitia abrigo e paz. Admirou-o em silêncio por alguns instantes, antes de reunir coragem para falar:

— Sou Alina, filha única do magistrado. Vivi tranquilamente como princesa até aos dezassete anos — disse com um sorriso melancólico, como quem recorda dias de serenidade agora distantes. — Meu pai e minha mãe sempre foram bondosos comigo. Conforme os costumes da nossa terra, recebi toda a instrução acerca da história do povo de Maguezi. Mas, há algum tempo, uma aura diferente pareceu apoderar-se do meu pai. Tornou-se alguém distante, como se estivesse a se afastar de tudo aquilo que antes me fizera acreditar e sonhar. O ambiente na nossa casa ficou cada vez mais pesado e austero, e de nada adiantava eu tentar fazê-los perceber que algo sombrio estava a acontecer.

Seus olhos cintilaram com uma mistura de tristeza contida e determinação.

— Talvez saibas disto: — continuou, com a voz levemente embargada — que nada desafia mais a intuição de uma mulher do que o silêncio das sombras. Meu jardim familiar, antes vibrante e abundante, começou a definhar; cada canto da nossa casa parecia perder o brilho, e meu espírito sentia-se sufocado, como se o próprio ar me faltasse.

Alina respirou fundo, tentando conter a angústia que lhe subia ao peito, antes de continuar:

— Certo dia, meu pai recebeu um visitante. Escondi-me para ouvir a conversa… e descobri planos cuidadosamente traçados para desencorajar todos os que tentavam despertar o povo para a escuridão que caíra sobre Maguezi, essa nuvem tenebrosa que lentamente tomava a nossa terra. Um aperto de indignação e medo tomou meu coração; senti um impulso irresistível de agir.

As lágrimas surgiram-lhe nos olhos e, pouco a pouco, desceram-lhe pelo rosto.

— Sem pensar, uma resolução irresistível levou-me a irromper naquela reunião — disse ela, com a voz trémula entre medo e coragem. — Em lágrimas, tentei fazê-los perceber que a cidade estava morrendo e que ainda havia tempo para nos unirmos à causa da luz. Mas fui duramente repreendida e expulsa. Um misto de desespero e alívio percorreu meu corpo e, sufocada pela injustiça e pela impotência, a única coisa que me ocorreu foi abandonar a casa.

Baixou o olhar por um instante.

— Saí de casa sem saber para onde ir. E, quando dei por mim, estava neste lugar… cheio de energia, de silêncio e de vida. Então pensei que talvez ainda houvesse esperança. Talvez ainda existisse um caminho para a luz.

Ao terminar, Alina ergueu o rosto. Nos seus olhos havia tristeza, mas também uma coragem recém-desperta.

Tsembissa ouviu tudo com profunda atenção. Admirou a sinceridade daquela jovem, mas temeu que a longa ausência agravasse ainda mais a dor de seus pais. Então falou-lhe com doçura:

— Ó mana, querida pelos céus, não prolongues tua ausência junto daqueles que te amam. Para os teus, tua falta já se tornou a verdadeira escuridão. Tua natureza nobre inspira os corações sensíveis, e não deves carregar sobre teus ombros suaves o peso do sofrimento daqueles que choram por ti.

Fez então uma breve pausa e acrescentou:

— Como ensinam os sábios:

“O belo e o divino só florescem
naquele que abandona o egoísmo.”

Alina ouviu aquelas palavras como quem encontra água depois de longa sede. E respondeu com um sorriso sereno:

— Eu sabia… Tu és realmente alguém especial. Farei o que me aconselhas.

E assim se despediram.

Alina regressou à casa dos seus pais, onde foi recebida com lágrimas de alegria. E, desde aquele dia, muitos começaram também a notar ao redor dela o mesmo fenómeno sobrenatural que acompanhava Tsembissa: colunas suaves de luz e uma música distante, quase celestial, como se a própria terra reconhecesse nela o despertar de uma nova claridade.

O Dia em que a Luz Retornou

Ora, como Tsembissa era um fenómeno em si mesmo, a casa da família Nyeleti tornou-se santuário de olhares e passos curiosos. Uma multidão passou a segui-lo, como mar que se move ao chamado do vento. Corriam adiante, detinham-se, sentavam-se ao redor dos caminhos, tentando guardar cada gesto, cada palavra, cada centelha de luz que dele emanava. Queriam ver com os próprios olhos, ouvir com os próprios ouvidos. Uns murmuravam:

— São anjos que caminham entre nós!

Outros diziam:

— São mágicos!

E havia ainda os que afirmavam:

— Divindades desceram dos céus para julgar e salvar Maguezi, a Cidade de Luz!

A família Nyeleti, percebendo que já não conseguiria conter a ansiedade do povo, compreendeu que o destino preparava um grande acontecimento. Assim, persuadiram Tsembissa a apresentar-se publicamente. E a notícia espalhou-se como fogo em capim seco:

— Amanhã, o jovem de luz falará à cidade!

E veio o dia.

A multidão reuniu-se diante da casa, com os olhos brilhando como estrelas em noite sem lua. Tsembissa não saiu pelas ruas como de costume; era hora de se mostrar plenamente, de permitir que todos contemplassem o mistério que nele habitava. Toda a cidade parecia reunida ali, suspensa em silêncio reverente. Até o vento parecia aguardar.

Então Tsembissa surgiu, radiante como aurora, acompanhado de alguns amigos que subiram com ele à plataforma elevada, acima do povo, como se buscassem tocar o próprio céu.

Adiantou-se primeiro o patriarca da família: um ancião de noventa anos, rosto austero e presença imponente. O seu corpo alto e vigoroso contrastava com a barba espessa, branca como neblina da madrugada. Os seus olhos, grandes e profundos, carregavam a força de quem atravessara os séculos; a sua voz, grave e serena, parecia acariciar o ar; e o sorriso, suave e luminoso, abria caminho à paz.

Erguendo a mão, disse apenas:

— Silêncio, todos.

E ninguém ousou falar.

Então Tsembissa avançou.

Naquele instante, o povo percebeu: o jovem era graça, encanto e mistério reunidos numa só presença. O olhar penetrante, o sorriso sereno, a postura firme e tranquila — tudo nele parecia falar de sabedoria antiga e de uma beleza que não vinha apenas do corpo, mas da própria alma.

E eis que um fenómeno sobrenatural se manifestou diante de todos.

Uma imensa coluna de luz ergueu-se sobre a praça e banhou toda a região. O dia tornou-se ainda mais claro, mas sem ferir os olhos; uma claridade suave e viva espalhou-se pelo horizonte. Bandos de aves começaram a sobrevoar o lugar, enquanto animais surgiam sem medo entre o povo, como se obedecessem ao mesmo chamado invisível.

Então uma música celestial, vinda de todas as direcções, inundou o ar.

Era a primeira chave do silêncio místico: aquela harmonia invisível que prendia os corações e preparava as almas para ouvir.

Quando Tsembissa abriu a boca, sua voz soou como flauta encantada — doce, profunda e poderosa. Sem saber exactamente por onde começar, passou a narrar a história do grande ancião: o fundador da cidade, o guardião da luz, o homem que sonhara Maguezi antes mesmo de suas ruas existirem.

Cada palavra parecia fio de ouro.

Cada frase, reflexo do céu.

Os olhares cruzavam-se entre lágrimas e espanto. Memórias esquecidas despertavam no íntimo do povo, como se o sonho do antigo fundador estivesse sendo projectado na consciência de todos ao mesmo tempo.

Quem contemplava aquela visão já não sabia distinguir:

Era Tsembissa quem falava?

Ou era o próprio ancião regressando através dele?

O ar vibrava.

A terra parecia suspirar.

Era a segunda chave do silêncio místico.

Quando terminou, Tsembissa percebeu algo extraordinário: todos os olhos cintilavam. As almas permaneciam suspensas entre o sonho e a realidade, como viajantes que atravessassem os séculos num único instante.

Era como se cada pessoa tivesse contemplado Maguezi desde sua origem — participando de suas alegrias, de seus desafios, de seus dias de luz e de suas noites de sombra.

Então, num só fôlego, todos regressaram ao presente.

Os olhos estavam húmidos.

Os corações, leves.

E Tsembissa permanecia de pé, sereno, carregando nos lábios um sorriso ancestral, como quem guardava a memória de muitos tempos.

Foi então que do chão surgiu uma esfera de luz.

Ela elevou-se lentamente aos céus, brilhando como arco-íris suspenso no ar. E, no ponto mais alto, transformou-se numa ave colossal — esplêndida como um pavão de fogo.

A criatura abriu as asas e soprou sobre os céus a névoa negra que ocultava o sol da verdade.

A escuridão dissipou-se.

E o céu abriu-se novamente sobre Maguezi.

Naquele momento, Tsembissa já não era apenas o centro das atenções. Tornara-se a própria chama da verdade — a luz que despertava nos corações, o entendimento que iluminava as mentes adormecidas.

Sem perturbar a serenidade da tarde que se encerrava, ele e seus amigos recolheram-se em silêncio. O patriarca e alguns membros da família Nyeleti permaneceram observando a multidão dispersar-se lentamente, enquanto cada passo parecia carregar respeito, admiração e maravilha.

E a luz voltou a brilhar, pura e constante, no coração de Maguezi, a Cidade da Luz.

Quando a noite caiu, a pedra sagrada no centro da praça reacendeu-se, iluminando novamente as ruas, os jardins e os rostos do povo, e a cidade voltou a viver em harmonia, cores e cantos.

E Maguezi voltou a ser a Cidade de Luz.

O segredo estava nos corações que viviam em amor, verdade e coragem — a verdadeira luz que nunca se apaga, que atravessa gerações e renasce em cada sorriso e gesto de bondade.