E assim aconteceu, tal como o sonho do régulo amado. Naquela terra remota, cingida por florestas densas e planícies majestosas, o vento sussurrava segredos ancestrais e os rios entoavam cânticos de outrora. No centro dessa terra erguia-se uma grande praça. Ali, de pé, elevava-se um poste imenso, tão alto que parecia tocar o céu. No seu cimo repousava uma pedra mágica.
Durante o dia, a pedra dormia serena; mas, ao cair da noite, incendiava-se num brilho tal que parecia ter trazido o próprio sol para a terra.
Por este prodígio, o lugar ficou conhecido como Maguezi — a Cidade de Luz.
Todavia, esta cidade não nascera por acaso. A sua fundação exigira suor, sacrifício e união. Os líderes da terra, com a força dos seus povos, dedicaram-se a erguê-la de modo que fosse governada pelo bem, geração após geração. Por isso, o espírito da Mãe Terra ali abundava, tornando-a fértil, justa e abençoada.
Devido às riquezas que se dizia ali existirem, nações vizinhas tentaram, por diversas vezes, saquear o seu ouro. Contudo, a intenção impura era um bloqueio intransponível.
O acesso a Maguezi era um mistério: apenas a luz franqueava a entrada. O caminho só se revelava aos que buscavam a paz e a harmonia; aqueles que marchavam sob o signo do mal perdiam-se no rasto das sombras, sem nunca vislumbrar os seus portões.
Surgiu, porém, naqueles dias, uma nação rebelde e temida, que instruía os seus filhos na arte cruel da guerra. Os seus soldados eram forjados desde a infância para a conquista e o domínio. Após subjugarem quase todas as terras vizinhas, sentenciaram:
— É chegado o tempo de tomarmos a Cidade de Luz!
Não precisavam da claridade para encontrar o rumo, pois haviam pactuado com as trevas. Sob o comando de capitães impiedosos, marchavam na escuridão mais profunda, movidos pela determinação de conquistar a cidade misteriosa que, afinal, não estava longe.
Chegaram.
— Mas… que luz é esta que brilha como o sol ao meio-dia e tudo ilumina? — perguntaram, assombrados.
Diante deles, a floresta encantada que guardava Maguezi erguia-se em majestade. Raios de luz atravessavam folhas e ramos, despertando memórias adormecidas e imagens de bondade que o treino militar julgara enterradas.
O sopro do riacho trazia lembranças suaves de uma ternura esquecida. O canto dos animais — aves de cores nunca vistas, criaturas julgadas extintas — ecoava como um alívio inesperado no deserto dos seus corações.
Ao contemplarem aquela beleza, alguns soldados sentiram algo estranho: os olhos tornaram-se mais claros, e o coração, antes endurecido, começou a ceder à ternura.
Mas os capitães, vigilantes, sufocavam qualquer sinal de fraqueza com gritos e ameaças.
— Oh! Que cidade tão “temida”! — murmuravam alguns, escondendo o assombro sob o sarcasmo.
Maguezi não possuía muralhas nem guardas armados. Podiam entrar livremente.
Enquanto a tropa avançava em prontidão, ninguém saía ao seu encontro para o combate. Não havia inimigos, apenas a natureza exuberante: jardins de flores vibrantes e animais majestosos que passeavam, rastejavam ou voavam sobre as suas cabeças.
Perante a ausência de resistência, os soldados vacilaram. Ninguém ousava empunhar armas contra uma beleza que resgatava o gosto pela harmonia. As armas, antes firmes, tornavam-se pesadas.
Alguns soldados começaram a abandoná-las.
Enfurecidos, os capitães ordenavam a execução imediata daqueles que se mostravam “contagiados”.
De súbito, uma multidão surgiu no horizonte.
— Preparar…! — bradou o capitão-chefe.
— Mas… a quem vamos combater? — perguntaram os soldados, confusos.
Eram homens, mulheres e crianças que cintilavam como diamantes sob o sol. Os seus pés marcavam o chão ao ritmo de danças alegres, e levavam sobre as cabeças cestos e peneiras transbordantes de água fresca, mel, frutos, ouro e pedras preciosas.
Ouviu-se então um clamor profundo, um sopro que parecia nascer das entranhas da terra:
— Hoyohoyo! Hoyohoyo!
E a planície encheu-se de festa.
Era o costume sagrado de Maguezi: o Hoyohoyo — a recepção sagrada que transformava estranhos em irmãos. A cidade inteira proclamava: “Nossa casa é a vossa casa; o que é nosso é também vosso.”
As mulheres ululavam, rasgando o céu com vozes de luz. Os homens batiam palmas compassadas, tambores ribombavam como trovões de júbilo e as crianças serpenteavam entre os recém-chegados, rindo como rios em liberdade. Os visitantes viam as suas bagagens pesadas serem tomadas por mãos gentis; outros recebiam água para lavar os pés, purificando-se para entrar no coração da cidade.
E então algo extraordinário aconteceu:
Os soldados — habituados à escuridão — descobriram o amor.
Sentiram alegria. Vontade de cantar. De dançar. De viver.
Lágrimas lavaram-lhes os olhos, tornando-os mais brilhantes e revelando-lhes o valor da vida. Os corações, outrora endurecidos, começaram a pulsar como corações de homens. Diante daquela alquimia interior, as armas começaram a pesar-lhes nas mãos — tornaram-se chumbo inútil.
Muitos não resistiram e largaram espadas, lanças e escudos.
— Traidores! — rugiu o capitão-chefe. — Treinámos-vos para a lealdade à nação que governa pela espada, não para vos renderdes ao amor!
Os capitães começaram a matar os que depunham as armas, mas o número dos que haviam sido tocados pela luz era já avassalador.
Diante disso, o que restava do exército foi forçado a retirar-se. Contudo, a luz de Maguezi não lhes permitiu encontrar o caminho de volta — e nunca mais se ouviu falar deles.
Dizem os anciãos que os Guardiões dos Espíritos de Vida tiveram compaixão daqueles corações frágeis, poupando-os de conhecer os juízos que recaem sobre os que oprimem os filhos da Mãe Terra e os protegidos do Pai Sol.
Sobre as nações do mal, o oráculo já pronunciara a sentença:
Andam sem integridade,
Com mãos cheias de ouro e corações vazios.
O povo, que deveriam guardar,
Oprimem com juros extorsivos,
Pesando fardos sobre ombros já cansados.
Usura é sua lei,
Avareza seu alimento.
Aumentam seus bens
à custa do suor alheio,
Sem temor, sem vergonha,
Sem memória da justiça.
Eis que te digo:
Desarmonias e contendas,
Invejas e disputas,
Concupiscências e cobiças —
Com tudo isso,
Corromperam suas heranças,
Rasgaram o pacto da confiança.
Vivem fugindo,
Mesmo quando ninguém os persegue,
Como sombras que temem a própria luz.
Muitos haviam tombado, é verdade. Mas maior que a dor foi a certeza de ter lutado pelo bem — de proteger aqueles que ainda não conheciam o amor.
As armas foram recolhidas e entregues à Mãe-Terra, que as ocultou para sempre nas suas entranhas. No lugar onde houve sangue, brotaram plantas maravilhosas de flores silvestres.
Cada pétala e cada fragrância tornaram-se testemunho eterno de que o amor é soberano.
O povo de Maguezi provou que, embora não soubesse manejar espadas, sabia lutar com o coração.
Não ergueram muralhas — ergueram cânticos.
Não impuseram medo — ofereceram frutos.
E sorriram, mesmo perante o desprezo, pois tinham em si a confiança e o calor da Mãe Terra.
Esta cidade de abundância e de contos de luz existe. Não está longe. Quem desejar conhecê-la, basta seguir a luz. Pois, como diz a lei antiga:
“Aquele que tiver o coração puro e buscar o bem,
encontrará o caminho.”