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Livro II · Volume 1

Maguezi, a Cidade de Luz

Crónicas da Cidade de Luz · ≈ 9 minutos de leitura

E assim aconteceu, tal como o sonho do régulo amado. Naquela terra remota, cingida por florestas densas e planícies majestosas, o vento sussurrava segredos ancestrais e os rios entoavam cânticos de outrora. No centro dessa terra erguia-se uma grande praça. Ali, de pé, elevava-se um poste imenso, tão alto que parecia tocar o céu. No seu cimo repousava uma pedra mágica.

Durante o dia, a pedra dormia serena; mas, ao cair da noite, incendiava-se num brilho tal que parecia ter trazido o próprio sol para a terra.

Por este prodígio, o lugar ficou conhecido como Maguezi — a Cidade de Luz.

Todavia, esta cidade não nascera por acaso. A sua fundação exigira suor, sacrifício e união. Os líderes da terra, com a força dos seus povos, dedicaram-se a erguê-la de modo que fosse governada pelo bem, geração após geração. Por isso, o espírito da Mãe Terra ali abundava, tornando-a fértil, justa e abençoada.

Devido às riquezas que se dizia ali existirem, nações vizinhas tentaram, por diversas vezes, saquear o seu ouro. Contudo, a intenção impura era um bloqueio intransponível.

O acesso a Maguezi era um mistério: apenas a luz franqueava a entrada. O caminho só se revelava aos que buscavam a paz e a harmonia; aqueles que marchavam sob o signo do mal perdiam-se no rasto das sombras, sem nunca vislumbrar os seus portões.

Surgiu, porém, naqueles dias, uma nação rebelde e temida, que instruía os seus filhos na arte cruel da guerra. Os seus soldados eram forjados desde a infância para a conquista e o domínio. Após subjugarem quase todas as terras vizinhas, sentenciaram:

— É chegado o tempo de tomarmos a Cidade de Luz!

Não precisavam da claridade para encontrar o rumo, pois haviam pactuado com as trevas. Sob o comando de capitães impiedosos, marchavam na escuridão mais profunda, movidos pela determinação de conquistar a cidade misteriosa que, afinal, não estava longe.

Chegaram.

— Mas… que luz é esta que brilha como o sol ao meio-dia e tudo ilumina? — perguntaram, assombrados.

Diante deles, a floresta encantada que guardava Maguezi erguia-se em majestade. Raios de luz atravessavam folhas e ramos, despertando memórias adormecidas e imagens de bondade que o treino militar julgara enterradas.

O sopro do riacho trazia lembranças suaves de uma ternura esquecida. O canto dos animais — aves de cores nunca vistas, criaturas julgadas extintas — ecoava como um alívio inesperado no deserto dos seus corações.

Ao contemplarem aquela beleza, alguns soldados sentiram algo estranho: os olhos tornaram-se mais claros, e o coração, antes endurecido, começou a ceder à ternura.

Mas os capitães, vigilantes, sufocavam qualquer sinal de fraqueza com gritos e ameaças.

— Oh! Que cidade tão “temida”! — murmuravam alguns, escondendo o assombro sob o sarcasmo.

Maguezi não possuía muralhas nem guardas armados. Podiam entrar livremente.

Enquanto a tropa avançava em prontidão, ninguém saía ao seu encontro para o combate. Não havia inimigos, apenas a natureza exuberante: jardins de flores vibrantes e animais majestosos que passeavam, rastejavam ou voavam sobre as suas cabeças.

Perante a ausência de resistência, os soldados vacilaram. Ninguém ousava empunhar armas contra uma beleza que resgatava o gosto pela harmonia. As armas, antes firmes, tornavam-se pesadas.

Alguns soldados começaram a abandoná-las.

Enfurecidos, os capitães ordenavam a execução imediata daqueles que se mostravam “contagiados”.

De súbito, uma multidão surgiu no horizonte.

— Preparar…! — bradou o capitão-chefe.

— Mas… a quem vamos combater? — perguntaram os soldados, confusos.

Eram homens, mulheres e crianças que cintilavam como diamantes sob o sol. Os seus pés marcavam o chão ao ritmo de danças alegres, e levavam sobre as cabeças cestos e peneiras transbordantes de água fresca, mel, frutos, ouro e pedras preciosas.

Ouviu-se então um clamor profundo, um sopro que parecia nascer das entranhas da terra:

— Hoyohoyo! Hoyohoyo!

E a planície encheu-se de festa.

Era o costume sagrado de Maguezi: o Hoyohoyo — a recepção sagrada que transformava estranhos em irmãos. A cidade inteira proclamava: “Nossa casa é a vossa casa; o que é nosso é também vosso.”

As mulheres ululavam, rasgando o céu com vozes de luz. Os homens batiam palmas compassadas, tambores ribombavam como trovões de júbilo e as crianças serpenteavam entre os recém-chegados, rindo como rios em liberdade. Os visitantes viam as suas bagagens pesadas serem tomadas por mãos gentis; outros recebiam água para lavar os pés, purificando-se para entrar no coração da cidade.

E então algo extraordinário aconteceu:

Os soldados — habituados à escuridão — descobriram o amor.

Sentiram alegria. Vontade de cantar. De dançar. De viver.

Lágrimas lavaram-lhes os olhos, tornando-os mais brilhantes e revelando-lhes o valor da vida. Os corações, outrora endurecidos, começaram a pulsar como corações de homens. Diante daquela alquimia interior, as armas começaram a pesar-lhes nas mãos — tornaram-se chumbo inútil.

Muitos não resistiram e largaram espadas, lanças e escudos.

— Traidores! — rugiu o capitão-chefe. — Treinámos-vos para a lealdade à nação que governa pela espada, não para vos renderdes ao amor!

Os capitães começaram a matar os que depunham as armas, mas o número dos que haviam sido tocados pela luz era já avassalador.

Diante disso, o que restava do exército foi forçado a retirar-se. Contudo, a luz de Maguezi não lhes permitiu encontrar o caminho de volta — e nunca mais se ouviu falar deles.

Dizem os anciãos que os Guardiões dos Espíritos de Vida tiveram compaixão daqueles corações frágeis, poupando-os de conhecer os juízos que recaem sobre os que oprimem os filhos da Mãe Terra e os protegidos do Pai Sol.

Sobre as nações do mal, o oráculo já pronunciara a sentença:

Andam sem integridade,
Com mãos cheias de ouro e corações vazios.
O povo, que deveriam guardar,
Oprimem com juros extorsivos,
Pesando fardos sobre ombros já cansados.
Usura é sua lei,
Avareza seu alimento.
Aumentam seus bens
à custa do suor alheio,
Sem temor, sem vergonha,
Sem memória da justiça.
Eis que te digo:
Desarmonias e contendas,
Invejas e disputas,
Concupiscências e cobiças —
Com tudo isso,
Corromperam suas heranças,
Rasgaram o pacto da confiança.
Vivem fugindo,
Mesmo quando ninguém os persegue,
Como sombras que temem a própria luz.

Muitos haviam tombado, é verdade. Mas maior que a dor foi a certeza de ter lutado pelo bem — de proteger aqueles que ainda não conheciam o amor.

As armas foram recolhidas e entregues à Mãe-Terra, que as ocultou para sempre nas suas entranhas. No lugar onde houve sangue, brotaram plantas maravilhosas de flores silvestres.

Cada pétala e cada fragrância tornaram-se testemunho eterno de que o amor é soberano.

O povo de Maguezi provou que, embora não soubesse manejar espadas, sabia lutar com o coração.

Não ergueram muralhas — ergueram cânticos.

Não impuseram medo — ofereceram frutos.

E sorriram, mesmo perante o desprezo, pois tinham em si a confiança e o calor da Mãe Terra.

Esta cidade de abundância e de contos de luz existe. Não está longe. Quem desejar conhecê-la, basta seguir a luz. Pois, como diz a lei antiga:

“Aquele que tiver o coração puro e buscar o bem,
encontrará o caminho.”