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Livro I · Volume 1

A Lenda do Régulo Amado

Crónicas da Cidade de Luz · ≈ 6 minutos de leitura

Há muito, muito tempo, nas planícies que descem para as águas do Índico, vivia um régulo profundamente amado pelo seu povo. Era visto como a própria encarnação da sabedoria e da justiça divina entre os homens. Tudo o que fazia, antes partilhava com todos, e nenhum segredo guardava no coração.

Contudo, ao fim das reuniões, os membros do conselho começaram a notar uma sombra de hesitação. O venerável ancião parecia reter um pensamento. Suspirava fundo, como quem ensaia um discurso, mas prefere o silêncio.

Intrigado, um dos representantes ergueu-se e interpelou-o:

— Ó gracioso Tatana, invejado até pelos indolentes! Tens sido para nós exemplo de virtude. Não há quem questione a tua governação. Até os deuses ancestrais reconhecem a tua autoridade. Mas diz-nos: o que guardas em silêncio? Revela-nos as palavras ocultas em teu coração, pois teu suspiro denuncia o desejo de partilhar um segredo connosco.

Os presentes entreolharam-se, surpresos e admirados com a ousadia do companheiro.

O régulo, acariciando a barba branca, sorriu com modéstia:

— Ai, ai, ai… mas que homem inquieto! Temo que descubram em mim a ingenuidade de uma criança.

— Conta-nos, sábio Tatana! — insistiram as vozes. — Nós ouvimos e seguimos-te!

O ancião observou-os demoradamente e soltou uma gargalhada franca.

— Tenho sido vosso guia e orientador, mas vocês também têm sido meus conselheiros nos caminhos da vida do nosso povo. Que pensariam se eu confessasse que um sonho de madrugada despertou em mim ideias tão puras quanto as de uma criança em sua pura inocência?

E, mais uma vez, todos repetiram:

— Conta-nos, ó sábio Tatana! Nós ouvimos-te e seguimos-te!

Mas já era tarde. O régulo ergueu a mão e encerrou a reunião, prometendo revelar o segredo numa ocasião oportuna.

Dias depois, convocou os chefes das aldeias e, com voz serena, declarou:

— Em sonho vi uma cidade esplendorosa — tão bela que parecia uma estrela no firmamento. Vi casas erguidas com harmonia, jardins vivos, crianças correndo livres como o vento. Vi o mar abraçar as ruas — não como fazem as águas comuns, mas como quem reconhece um lar. O ar daquela cidade era o próprio mar: o salitre pairava suave, e uma brisa constante envolvia tudo como um manto invisível, sussurrando em cada esquina. E vi um povo feliz. Desde então, trago comigo este desejo: que essa cidade seja nossa!

A visão espalhou-se como fogo na savana. Os chefes levaram o relato às aldeias e o povo encantou-se. Era como se aquela cidade já existisse dentro de cada um. Todos passaram a desejá-la.

Dias depois, reuniram-se novamente para decidir os destinos da terra e do povo. Um a um, os chefes levantaram-se. As suas vozes traziam o peso da tradição e o brilho da esperança. Contaram como o sonho do régulo caíra nos ouvidos do povo como chuva mansa sobre terra seca: os anciãos falaram com lágrimas nos olhos, os jovens inflamaram-se de coragem, e até as crianças perguntavam quando poderiam correr pelas ruas da cidade que brilhava como estrela.

E assim, ainda que nem todos se oferecessem de imediato, a maioria dos povoados prontificou-se. A construção uniu os povoados. Adultos, jovens e crianças contribuíram com o que tinham. E a cidade nasceu — erguida pelo esforço de todos.

E era, de facto, a mais bela entre as terras vizinhas. Nela havia tudo o que podia alegrar o coração humano: edifícios, jardins, lugares de encontro, florestas vivas e o mar a envolver tudo como um abraço.

Embora o velho régulo tenha partido antes de ver a obra concluída, viveu os seus dias em plenitude, tendo firmado a base sobre a qual tudo se sustentaria: o bem como lei, e a alegria como alicerce.

E assim foi.

Gerações passaram-se, mas aquela terra permaneceu firme e formosa, imune ao desgaste do tempo. Assim nasceu a lenda de Maguezi — a Cidade de Luz: o lugar onde o sonho de um homem se tornou o destino de um povo.